terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Família

Queridos,

Compartilho com vocês esse texto espetacular sobre a família, instituição fundamental em nossas vidas, e que de alguma forma faz toda a diferença principalmente nas datas comemorativas de final de ano. Seja ela a família biológica,  a família que construímos ou até mesmo a família que escolhemos.
"Família é prato difícil de preparar"

(de "O Arroz de Palma", de Francisco Azevedo)


    Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.
    E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo.    Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.
    Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.

    Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.
    O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini; Família à Belle Meunière; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é “à Moda da Casa”. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.
    Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.
      Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Pulso

A relação entre a necessidade e demanda produz uma defasagem onde nasce o desejo. Uma busca interminável para preencher uma falta que insiste em se fazer presente. Afinal de contas, que falta é essa? Freud no seu texto Mal-Estar na Civilização aponta que a cultura pode ser destruidora. Ela valoriza alguns padrões, comportamentos, com os quais muitas vezes somos capturados. Podemos observar como exemplo muito comum nos dias de hoje, o uso excessivo de medicações na tentativa de “uma certa cura” de estados de angústia que, muitas vezes, poderiam ser repensados e ressignificados sem o uso de tais medicações. A medicação está a serviço do patológico. Estamos na era da patologização que também está a serviço de algo que é valorizado pela cultura. Essa cultura é massacrante, e pode promover verdadeiros genocídios nas nossas relações.
Afogados e encharcados por todas essas exigências em que somos convocados, entramos em contato com nossos vazios e impossibilidades que se tornam insustentáveis. Confrontamo-nos com nossos sentimentos mais profundos e doídos, que são reverberados internamente e sentidos numa espécie de terror sem nome. Confusos e impotentes entregamos para o “o outro” o poder de alguém que possa nos ajudar, onde não mais nos reconhecemos, nem “Como fazer?” “E o que fazer?”
Melanie Klein- Percussora da escola inglesa de Psicanálise com ideias emancipadoras de Freud- aponta em sua obra que as pessoas não sofrem apenas de carências, repressões e traumas. Há um sofrimento pela falta de experiências emocionais que propiciem um desenvolvimento/crescimento. Podemos então abrir a questão: Até que ponto nos deixamos paralisar frente às exigências da cultura e deixamos de pensar no nosso papel enquanto sujeito de nossas experiências? O desejo vai estar sempre tentando dar conta da falta. E essa falta vai sempre existir, na medida em que são produzidas mais exigências na vida. A frustração é inevitável. Paralisar?. Não podemos deixar de pensar num conceito fundamental em psicanálise, o conceito de pulsão. As pulsões caracterizam-se numa pressão ou força que faz o organismo tender a um objetivo. Freud aponta que o dualismo pulsional, entre pulsão de vida e pulsão de morte é inerente ao ser humano. É algo que temos conosco e nos impulsiona na vida, no trabalho, nas relações, nas experiências, procurando nossos objetivos, nossos objetos.
Quando então pensamos na busca interminável por algo que falta, sobre o desejo que grita por aquilo que escapa, na angústia que nos encharca, no indizível, no inominável que nos é povoado pelas frustrações inevitáveis da vida, no medo de um futuro próximo e na incerteza se chegaremos lá, passamos por períodos de não compreensão de nós mesmos. As pulsões como um tornado, passam a ter grandes dificuldades de encontrarem seus objetivos. Falta o ar, o oxigênio, entramos numa espécie de areia movediça. E nossas pulsões? Continuam no seu conflito constante e querem achar seus objetivos… Como?
Wilfred Bion-Psicanalista com importante contribuição na escola inglesa de Psicanálise, no texto, “Sem Memória, sem Desejo, sem Compreensão”, um texto técnico e a priori sem função para os que não são da área psi, nos coloca uma questão que está para todos, na qual podemos refletir, sobre o que fazer quando estamos nesses períodos de não-compreensão de si próprio, do outro, da vida. Ele recomenda o tanto quanto possível, nos aproximarmos de um estado de vazio interno, não um estado da falta, mas um estado que se equaciona numa disponibilidade interna para se escutar, e também para escutar o que o outro tem a dizer de novo. O autor atenta para que não nos deixemos contaminar com nossos desejos, crenças, julgamentos. E assim tentármos criar um ambiente interno favorável, uma espécie de silêncio interno, fundamental para que escutemos o ecoar das muitas possibilidades de encontros e caminhos que temos a seguir. Embarque. As escolhas são nossas!

                                                                                               Por Viavian Costa






quinta-feira, 15 de julho de 2010

Aniversário

Queridos,

Esse mês o blog faz um aninho....e enquanto tal ainda está engatinhando. Mas espero poder dividir com vocês tudo ou quase tudo que a psicanálise e suas vertentes têm a nos oferecer.
Somos um de-vir a todo instante e meu blog não será diferente.
Agradeço a todos( principalmente aos meus queridos pacientes) que de uma certa forma contribuem para que a psicanálise nos atravessem a todo instante.